Por Matheus Santos
•
3 de julho de 2026
Uma das pistas mais incômodas sobre a esquizofrenia não estava em exames de imagem nem em marcadores biológicos. Estava no que os pacientes ouviam quando as vozes chegavam. Em 2014, um grupo de pesquisadores publicou no The British Journal of Psychiatry um estudo que comparou a experiência de ouvir vozes em três países muito diferentes entre si. O que voltou das entrevistas foi tão distinto entre os grupos que se tornou o achado central do trabalho, e abriu uma pergunta que ainda incomoda a psiquiatria: e se o tom das vozes que uma pessoa escuta não fosse apenas um sintoma bruto do cérebro, mas algo atravessado pela cultura em que ela vive? Antes de seguir, vale um enquadramento. Este texto discute um achado de pesquisa sobre a experiência subjetiva de pessoas com diagnóstico de esquizofrenia. Não é um guia de diagnóstico nem de tratamento, e nada aqui sugere que sofrimento psicótico dispense cuidado profissional sério. O objetivo é ampliar a compreensão, não substituir avaliação clínica. O Estudo: Mesmo Roteiro, Três Culturas A pesquisa foi conduzida pela antropóloga Tanya Luhrmann, de Stanford, junto a psiquiatras da Schizophrenia Research Foundation, em Chennai, na Índia, e do Accra General Psychiatric Hospital, em Accra, Gana. O estudo está disponível em doi.org/10.1192/bjp.bp.113.139048. O desenho era direto. Sessenta pessoas que ouviam vozes e preenchiam critérios de esquizofrenia foram entrevistadas, sendo vinte nos Estados Unidos, vinte na Índia e vinte em Gana. Todas responderam ao mesmo roteiro estruturado sobre a experiência de ouvir vozes: quantas eram, quem eram, o que diziam, como a pessoa se sentia em relação a elas. A escolha dos três países não foi aleatória. Ela contrasta um contexto ocidental fortemente individualista, os Estados Unidos, com dois contextos mais relacionais e comunitários, o sul da Índia e Gana. A ideia era justamente testar se a moldura cultural aparecia no conteúdo relatado das alucinações. O Que Cada Grupo Relatou No grupo americano, a tônica foi de violência e invasão. Muitos participantes descreveram vozes que ordenavam ferir os outros ou a si mesmos. Praticamente todos recorriam a rótulos diagnósticos para falar da experiência, e nenhum a descreveu como predominantemente positiva. A voz era vivida como bombardeio, sinal de um cérebro avariado, intrusão em uma mente que deveria ser um território privado e inviolável. Em Chennai, no sul da Índia, o quadro foi outro. Mais da metade dos participantes ouvia vozes de parentes, de familiares, às vezes dando bronca, mas também orientando, aconselhando e pedindo tarefas cotidianas, como ir cozinhar. Um participante descreveu as vozes como pessoas mais velhas aconselhando pessoas mais novas. A relação com a voz aparecia com frequência como um vínculo, não como uma agressão. Em Accra, em Gana, a maior parte dos participantes ouvia Deus falar em voz audível, e uma parcela significativa qualificava a experiência como principalmente boa. A voz espiritual, com sentido religioso, tinha um lugar reconhecível na vida da pessoa. O contraste central que os autores registraram foi este: os participantes dos Estados Unidos foram mais propensos a usar rótulos diagnósticos e a relatar comandos violentos, enquanto os da Índia e de Gana foram mais propensos a descrever relações ricas com suas vozes e menos propensos a descrevê-las como sinal de uma mente violada. A Hipótese: Cultura, Self e o Tom da Voz É importante separar aqui o que é dado observado do que é interpretação. O dado é a diferença no conteúdo relatado das vozes entre os três grupos. A explicação para essa diferença é uma hipótese dos autores, e é aí que o estudo fica teoricamente interessante. A hipótese mobiliza uma distinção conhecida da psicologia cultural: a diferença entre um self construído como independente e um self construído como interdependente. Essa formulação foi articulada de forma influente por Hazel Markus e Shinobu Kitayama em um artigo de 1991 na Psychological Review, disponível em doi.org/10.1037/0033-295X.98.2.224. De forma simplificada, a ideia é que culturas ocidentais individualistas tendem a favorecer uma visão do self como uma unidade separada, autônoma, definida por atributos internos e delimitada em relação aos outros. Já muitas culturas não ocidentais tendem a favorecer uma visão do self como fundamentalmente relacional, definido pelos vínculos, pelos papéis e pela pertença a um grupo. Aplicada ao estudo das vozes, a hipótese fica assim: onde a pessoa se compreende como um indivíduo fechado, com uma mente que é um território privado, uma voz estranha que entra sem convite é vivida como invasão, como violação de uma fronteira. Onde o self já é feito de relações, a mesma voz estranha encontra um lugar mais familiar, e pode ser vivida como mais um interlocutor, um parente, uma presença espiritual, alguém com quem se convive. Os autores vão além e levantam uma possibilidade ainda mais forte: a de que a expectativa cultural molde não apenas como a voz é interpretada depois que chega, mas o próprio tom afetivo daquilo que se escuta. Ou seja, a cultura não estaria só emoldurando um sintoma bruto e idêntico em todo lugar, mas participando da própria forma que a experiência assume. Vale registrar que a teoria de Markus e Kitayama, embora amplamente influente, também recebeu críticas metodológicas na própria psicologia cultural. Trabalhos como o de David Matsumoto, publicado em 1999 no Asian Journal of Social Psychology e disponível em doi.org/10.1111/1467-839X.00042, questionaram até que ponto a evidência empírica sustenta a distinção entre self independente e interdependente da forma como ela costuma ser aplicada. Isso não invalida a hipótese de Luhrmann, mas é honesto reconhecer que a moldura teórica sobre a qual ela se apoia é ela própria objeto de debate. Um Achado Que Conversa com a História da Psiquiatria O estudo de Luhrmann não surgiu no vácuo. Ele dialoga com um dos achados mais discutidos da psiquiatria transcultural do século XX: a observação de que a esquizofrenia parecia ter melhor curso e prognóstico em países em desenvolvimento do que em países ricos. Essa observação vem de uma série de grandes estudos multicêntricos conduzidos pela Organização Mundial da Saúde ao longo de décadas. O primeiro foi o International Pilot Study of Schizophrenia, iniciado no fim dos anos 1960 e publicado a partir de 1973, que acompanhou mais de mil pacientes em nove países. No seguimento de dois e cinco anos, apareceu um resultado inesperado: pacientes de centros em países em desenvolvimento, como Índia e Nigéria, apresentavam desfechos globais melhores do que os de países desenvolvidos. Esse achado foi reforçado por um estudo posterior, o Determinants of Outcome of Severe Mental Disorders, coordenado por Assen Jablensky, Norman Sartorius e colegas, publicado em 1992 como monografia da série Psychological Medicine e disponível em doi.org/10.1017/S0264180100000904. Ele rastreou coortes de casos com métodos padronizados de identificação e diagnóstico, buscando responder a uma crítica óbvia ao estudo anterior, a de que as diferenças poderiam ser artefato de amostragem. E, no seguimento de cinco anos, a Índia apresentou a maior proporção de melhores desfechos, seguida pela Nigéria. Décadas depois, a OMS retomou esses pacientes em um terceiro estudo, o International Study of Schizophrenia, com seguimentos de 15 e 25 anos, publicado no início dos anos 2000 e reportado por Kim Hopper e colegas, com resultados disponíveis em doi.org/10.1017/S0033291702001004. De forma geral, a vantagem de desfecho para os centros de países em desenvolvimento se manteve na análise de longo prazo. Por Que Isso Precisa de Cautela Aqui o rigor exige um freio. Esse conjunto de achados, às vezes chamado de paradoxo do desfecho, virou quase um axioma na psiquiatria internacional, e justamente por isso foi submetido a críticas sérias. Uma revisão publicada por Alex Cohen e colegas em 2008 no Schizophrenia Bulletin, disponível em doi.org/10.1093/schbul/sbm105, questionou a solidez do axioma. Os autores apontaram problemas como a heterogeneidade entre os estudos, as altas taxas de perda de seguimento em alguns centros de países em desenvolvimento, que podem enviesar os resultados, e a fragilidade de tratar categorias tão amplas como país desenvolvido e país em desenvolvimento como se fossem variáveis explicativas limpas. A conclusão deles não foi que o paradoxo é falso, mas que ele está longe de ser tão estabelecido quanto sua popularidade sugere. Ou seja: existe um corpo de evidência histórica sugerindo melhor prognóstico fora do Ocidente, e existe um debate legítimo sobre o quanto essa evidência é robusta. O estudo de Luhrmann sobre as vozes se encaixa nesse quadro como uma peça possível de explicação, não como prova definitiva. Se o prognóstico é de fato melhor em alguns desses contextos, uma das razões pode estar em como a experiência psicótica é vivida e recebida socialmente. Mas isso é uma hipótese que costura dois debates em aberto, e não um fato assentado. O Que Este Estudo Não Diz Pela força do achado, é fácil deslizar para leituras que o estudo não autoriza. Vale explicitar os limites. O estudo não diz que cultura cura psicose. Ele não é sobre cura, remissão ou ausência de doença. É sobre o conteúdo e o tom afetivo da experiência de ouvir vozes, relatados em entrevista. O estudo não diz que tratamento é dispensável. Em nenhum dos três países a presença de vozes com sentido mais benigno significou ausência de sofrimento ou de necessidade de cuidado. Pessoas com esquizofrenia sofrem e precisam de acompanhamento sério em qualquer contexto cultural. O estudo não autoriza exotizar Índia ou Gana, nem tratar esses contextos como curiosidades pitorescas. As culturas em questão são complexas, internamente diversas e atravessadas por seus próprios sistemas de cuidado e de sofrimento. A leitura respeitosa é a de que diferentes molduras culturais produzem diferentes experiências, não a de que umas seriam ingênuas e outras avançadas. E o estudo tem limitações metodológicas claras, que os próprios autores reconhecem. A amostra é pequena, com sessenta pessoas no total e vinte por grupo. Não são amostras representativas de países inteiros, mas recortes específicos: Chennai, no sul da Índia, e Accra, em Gana. As entrevistas foram conduzidas majoritariamente em inglês, com tradução quando necessário, o que introduz mediações. E o desenho é qualitativo e transversal, o que permite descrever diferenças, mas não estabelecer relações de causa e efeito. Nada disso invalida o achado. Apenas o coloca no seu tamanho real: uma observação instigante que abre uma agenda de pesquisa, não uma lei. Diagnóstico em Saúde Mental Não é uma Categoria Fechada Há um ponto de fundo que este estudo ilumina bem. Em saúde mental, o diagnóstico não funciona como um exame que dá positivo ou negativo. Ele é uma construção clínica, probabilística e contextual, feita a partir de critérios que descrevem padrões de experiência e comportamento, e que são eles próprios revisados ao longo do tempo. Isso não significa que o diagnóstico seja arbitrário ou dispensável. Significa que ele é uma ferramenta de organização do cuidado, não uma verdade biológica pura e independente de contexto. Quando o mesmo fenômeno, ouvir uma voz que não vem de fora, aparece vivido como agressão em um lugar e como conselho de um parente em outro, fica evidente que a experiência psíquica não pode ser lida fora da cultura que a atravessa. O Que Isso Muda na Clínica, Especialmente no Brasil Para quem atende pessoas com sintomas psicóticos, o estudo tem uma implicação prática concreta, e ela é especialmente relevante em um país como o Brasil. O Brasil é culturalmente diverso, e não só entre regiões. Dentro de uma mesma cidade convivem tradições religiosas distintas, sistemas de crença variados, formas diferentes de compreender presença, espírito, voz e comunicação com o não visível. Uma voz interpretada como manifestação espiritual em um contexto religioso, uma voz vivida como perseguição em outro, e uma voz lida como sintoma de doença em outro podem coexistir em pacientes atendidos no mesmo serviço. A implicação clínica não é abandonar a avaliação diagnóstica nem o tratamento baseado em evidências. É acrescentar a eles uma pergunta que muitas vezes fica de fora: o que essa voz significa para esta pessoa? Quem é essa voz para ela? Como ela se sente em relação ao que escuta? Investigar o significado subjetivo e cultural da alucinação, e não apenas classificá-la como presente ou ausente, é o que permite entender o sofrimento em sua forma real e construir um cuidado que faça sentido para aquele paciente específico. Esse é o ponto que o achado de Luhrmann deixa em aberto como possibilidade, e que vale levar a sério sem exageros: a voz violenta, tão comum nos relatos ocidentais, talvez não seja o destino inevitável da esquizofrenia. Talvez ela seja, em parte, também um produto da forma como uma cultura ensina a ouvir. Formação que Lê o Sintoma Sem Esquecer a Cultura Compreender um sintoma psicótico em profundidade exige as duas competências ao mesmo tempo: o domínio dos critérios diagnósticos e das evidências de tratamento, e a sensibilidade para o significado subjetivo e cultural daquilo que o paciente vive. Uma sem a outra empobrece o cuidado. No IC&C , a formação de profissionais de saúde mental busca justamente essa integração: rigor clínico e científico articulado à leitura do contexto que atravessa cada quadro. Ler o sintoma sem esquecer a cultura que o constitui não é um adorno humanista sobre a técnica. É parte da técnica. Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento profissional individualizado. Referências Luhrmann, T. M., Padmavati, R., Tharoor, H., & Osei, A. (2015). Differences in voice-hearing experiences of people with psychosis in the USA, India and Ghana: interview-based study. The British Journal of Psychiatry, 206(1), 41-44. doi.org/10.1192/bjp.bp.113.139048 Markus, H. R., & Kitayama, S. (1991). Culture and the self: Implications for cognition, emotion, and motivation. Psychological Review, 98(2), 224-253. doi.org/10.1037/0033-295X.98.2.224 Matsumoto, D. (1999). Culture and self: An empirical assessment of Markus and Kitayama's theory of independent and interdependent self-construals. Asian Journal of Social Psychology, 2(3), 289-310. doi.org/10.1111/1467-839X.00042 Jablensky, A., Sartorius, N., Ernberg, G., Anker, M., Korten, A., Cooper, J. E., Day, R., & Bertelsen, A. (1992). Schizophrenia: manifestations, incidence and course in different cultures. A World Health Organization ten-country study. Psychological Medicine Monograph Supplement, 20, 1-97. doi.org/10.1017/S0264180100000904 Hopper, K., & Wanderling, J. (2000). Revisiting the developed versus developing country distinction in course and outcome in schizophrenia: results from ISoS, the WHO collaborative followup project. Schizophrenia Bulletin, 26(4), 835-846. doi.org/10.1093/oxfordjournals.schbul.a033498 Cohen, A., Patel, V., Thara, R., & Gureje, O. (2008). Questioning an axiom: better prognosis for schizophrenia in the developing world? Schizophrenia Bulletin, 34(2), 229-244. doi.org/10.1093/schbul/sbm105